O desportista fanático.

9.26.2010 -


Prepare o seu coração,  fôlego, estado físico e exercite também a paciência: ele entrou em campo. Pisou o gramado da sua vida, deu a largada no seu coração, e competente como ele só, atravessou a faixa de chegada como campeão no seu cotidiano. Você pode ter o conhecido por uma amiga em comum, sem querer, no elevador do prédio dele, ou até mesmo, na academia que você freqüenta. E o que aparentemente era apenas um deus grego, com um corpo fabuloso, um rosto divino e aquele toque informal, coloquialmente bem vestido, você descobrirá na seqüência que trata de ser um aficionado nas mais diversas e impensáveis modalidades de esporte possíveis. Entre esporte atrás de esporte, sem cansar, com muita vitalidade e suor.
 No começo, você chega a nem notar tanto apelo desportivo. Não fosse pelo estilo, tão impessoal, quanto informal, você o consideraria um fiel amante de literatura brasileira, um ótimo advogado, ou um entre tantos outros homens, amantes do tripé futebol-cerveja-amigos, e só. Seria ótimo se fosse apenas isso. Porém, quando na casa do rapaz, numa das primeiras vezes em que estão juntos, brindando tal momento no sofá da sala e ele resolve ligar a televisão porque não pode perder a Superliga de Vôlei - e nem ao menos é o time do Bernardinho - você começa a estranhar. Logo depois, comenta o quão empolgante ver a equipe italiana massacrar o Irã, e ele diz que isso nem é nada, que quando chegar a vez do Brasil é que ficará bom. Só resta a você, acreditar. No meio do jantar, toca a secretária eletrônica, e você suspira quando ele não atende o telefone, e continua lhe dando atenção. Porém a mensagem seguinte é ainda mais suspeita: "Aí brother, amanhã vai rola altas ondas, mar clássico. Se pilhar fazer o bate e volta, liga ae. Falou!". Silêncio, constrangimento, dois sorrisos amarelos. O multiesportista apenas comenta algo como, "se você quiser ir junto, tudo bem, tem lugar no carro." E como é sábado, e seus planos se resumiriam a ficar descansando consigo mesma, no meio de três livros e talvez um chá, e muitas horas de sono, você aceita.
Pranchas, roupas para surf, parafina. Você, sua mala, que aumenta ano após ano, e o carro lotado. "Ainda faltam algumas coisinhas." Na volta do moço ao estacionamento, coletes, proteção para cabeça, joelho e cotovelos, um skate, e uma pá de remo. "Pra que tudo isso?" pergunta, incrédula. Resposta então ouvida: para o final de semana, meu bem. Juntamente com, claro, o sinal da televisão à cabo. Tem jogo do time dele, que até é o mesmo que o seu, e é imperdível - porém, essa parte era completamente imaginável.
Três dias, e você absorta com tanto esporte: canoagem, rafting, surf, kite-surf, futevôlei, volêi, futebolzinho na praia, paraquedismo. Os mais radicais, em paradas estratégicas nas cidadezinhas que o interior abriga a prática. Já os considerados praieiros, urbanos, ou comuns, estrelando a maior parte do final de semana. Salva pelo seus livros, telefone celular, materiais de estudo, foi ótimo você ter trazido algo para se ocupar. Afinal, ele até convida você para toda a agitação recorrente, seus amigos até são simpáticos. Mas a disposição que falta em você, é a corda toda que ele tem. Enquanto você dá a sua corridinha no calçadão, ele corre para a maratona da cidade, daqui há dois meses. Se mete no seu treino da academia, julgando entender tanto quanto o personal trainer. E os amigos, da mesma tribo, aparentemente também. E as músicas agitadas que escutam refletem também tal espiritualidade, juntamente com as revistas esportivas que lêem, e as roupas, desajeitadamente sport que usam.
Placar final do relacionamento mais na esportiva que você já teve: horas e mais horas de leitura, incompatibilidade de gostos, ações, pensamentos e visibilidade futura. Um corpo mais enxuto, e um bumbum mais durinho. Conhecimento das mais bizarras modalidades esportivas. E você, no zero à zero. Parece que esse foi o único esporte que o moço esqueceu de colocar na lista...Ou mesmo, de treinar. Perdeu de w.o, sem nem ao menos chegar ao gol. É uma pena, mas no jogo do amor, quem sai antes da hora, não pode se julgar ganhador - a covardia não sabe subir ao pódio.

18 Comentários:

  1. 1º comentario. Que lindo.

    Bem, como sempre encantando.
    Já disse que adoro o jeito como vocÊ utiliza as palavras no texto. Parece que estou ouvindo você falar, conversando comigo. como se fosse minha amiga '-'
    Adorei. apesar de não ser muito fã de esportes. O maximo que faço é carregamento de livros hehehehe

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  2. Camila, como sempre falando conosco. Ótimo texto, descreve maravilhosamente coisas chatas que passamos.
    Mais uma vez parabéns pelos pensamentos!

    Beijoos,
    Taíse

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  3. Já passei por essa situação, e é um saco. Mais uma vez amei teu texto.
    E realmente a covardia não sabe subir ao pódio.

    Besitos!

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  4. Quando algo nos tira a prioridade dele, nada mais irrita!
    Gostamos e sempre queremos ser a prioridade...
    E essa fixação por algo pode esconder o medo de se entregar, taí porque não sobe ao pódio..
    Beeijo ;*
    ps. obrigada pelos desejos de sorte e felicidade, te desejo o mesmo sempre! *--*

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  5. me sinto ás vezes sem palavras pra falar da Camila!

    perfeito texto.
    tem mais algo pra falar?

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  6. "E você, no zero à zero. Parece que esse foi o único esporte que o moço esqueceu de colocar na lista...Ou mesmo, de treinar. Perdeu de w.o, sem nem ao menos chegar ao gol"

    Rêeee... Tem que dar assistencia, rs...
    beeijo

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  7. A covardia, definitivamente, não sabe subir ao pódio. Perdeu na melhor - e mais importante- das modalidades.
    *=/



    Beijo!

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  8. HAUSHUHA Esse foi divertido. E é até cool o cara ser tão esportivo, a moça se tornaria esportiva e os dois seriam saudáveis, com filhos saudáveis e um casamento saudável. Ah, eu gosto de chuva, eu gosto de sol, eu gosto de vento. Gosto de quase tudo AHUSHUHSUSH Só não de céu parado D:

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  9. adorei seu texto, confesso q meu namorado eh mais ou menos assim, ele adora esportes enquanto eu sou bem sedentária, ele luta jiu-jitsu, muy thai e joga futebol enquanto eu gosto de ler, escrever e ver televisao, mas nem por isso deixamos de lutar um pelo outro, ele lê meus textos e agora eu aprendo uns golpes de luta, ahauuah

    tem q ser assim

    beijoss

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  10. "É uma pena, mas no jogo do amor, quem sai antes da hora, não pode se julgar ganhador - a covardia não sabe subir ao pódio."
    fantastico Camila! concordo muitissimo com você!
    no inicio quando a gente entra num relacionamento que o centro das atençoes ou dediccaçoes não somos nós, fica a dúvida se o errado ta na gente, mas a verdade é essa, é covardia, é o medo ridiculo de amar! mas, a covardia NUNCA vai subir ao pódio :)

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  11. Calmila agora lista os estereótipos masculinos?
    Estou curioso quanto aos próximos perfis.
    Confesso que não conhecia o esportista, me parece bastante convincente, olhando daqui.
    Acho que gostei da linha que você está seguindo, sempre me parece novo mas, ainda assim, com a sua assinatura usual que já fez uma historinha por aqui.

    Siga diagnosticando, eu sempre procuro alguma patologia aqui.

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  12. "É uma pena, mas no jogo do amor, quem sai antes da hora, não pode se julgar ganhador - a covardia não sabe subir ao pódio."

    Lindo!

    Texto divertido. Me lembrou a escrita da Martha Medeiros, leve e engraçado. Sempre evoluindo.

    =*

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  13. haha, mt bom meeeeeesmo!
    principalmente o final. :D

    deve ser muito dificil sair com um camarada assim. Tipo, eu já fiquei as voltas com um que era fanatico (mas fanatico mesmo) apenas por futebol, quem dirá se fosse por todos os esportes do mundo! ;D

    beijos linda.
    sucesso

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  14. Graças a Deus nunca encontrei um desses e só de imaginar já me deu horror...xoxo.
    beijos querida :**

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  15. "É uma pena, mas no jogo do amor, quem sai antes da hora, não pode se julgar ganhador - a covardia não sabe subir ao pódio." ISSO AE!
    mas que cara chato esse, deus me livre de cruzar com alguém assim. não se pode ser tão compenetrado em algo, enjoa. você está se dando bem explorando outras áreas, segue o barco moça, capitã. sigo lendo. beijos lindona!

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  16. adorei o blog, adorei o post! estou seguindo. (:

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  17. Haha esporte não é mesmo o nosso forte né?! =p
    Mas esse tipo de relacionamento não pode ser tão ruim. Afinal, não dizem que os opostos se atraem?

    Texto bem humorado. Adoooro!

    BjO moça!

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  18. Isso me soou como uma metáfora. Era pra ser?
    Hahaha
    Enfim, foi assim que me pareceu. Atenção a tantas coisas, estar sempre ocupado, sempre correndo sempre à frente, sempre a mil por hora e esquece os pequenos detalhes que passam batido.
    Esquece de dar aquela importância necessária às coisas do cotidiano.

    Gostei, bela 'metáfora'.

    Beijo bem grande, querida!

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