Bento

6.13.2010 -








Assim como Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, e Antonio, de Bruna Lombardi, hoje apresento alguém que vem me acompanhando há tempos, e que nunca tentei nomear. Vasculhei meu caderninho de nomes bonitos e encontrei o substantivo próprio que escolhi à dedo para viver comigo para sempre, no mundo literário: Bento.
Agora Bento me olha, e eu não sei direito como interpretar. Baixa o par de óculos escuros num dia cinza, e o olhar profano me corrói. É o par de bolitas intensas e escuras, que ainda assim domina minhas ações; controla minha presença. Magnetiza. E tem mãos firmes, e bonitas. Conversa leve, e ri às vezes. E me fascina ainda mais, cada vez com mais mistério, hipnotizando e me deixando ainda mais abobalhada, ansiosa e atrapalhada. Bento tem todo esse poder, desde sempre. Já me fez chorar noites inteiras, e rir com convicção, sedutora. Bento aparece nas horas mais impróprias, e se manifesta das maneiras menos viáveis. É ele quem me dá a mão no shopping, num primeiro encontro, e que logo depois, me tiraniza com sua frieza incontrolável. Nasceu torto e bipolar, como eu. Coitadinho.
Bento já grudou na minha pessoa, e tive que o fazer desgrudar. Me socorreu em porres homéricos, e cuidou de mim na cama, apenas de roupão. Me beijou mesmo depois de me ver vomitada, no dia seguinte. E sumiu, como poeira na luz, voando; ou glitter, no carnaval. Reapareceu algumas vezes, e deixou lembranças inesquecíveis; marcantes. Bentinho é filho pródigo, e retorna à casa por gosto, e nunca por obrigação. Bento, que não tem antes do nome Chico, e eu que não sou sua Capitu, que dupla. Ben poderia ser Ken. Mas daí eu lembro que, nem mesmo eu sou a Barbie. Quem dera...
Bento me encontra no meio da rua, e me aluga por horas. Tira meu sossego, e sempre promete vingança. Me ilude com suas palavras doces, e aparentemente sinceras. Me pede massagem, virando de costas e me chamando pra perto. Joga contra a parede seu celular, e logo depois, meu corpo frágil e tenso. Me amassa, me unta, e me embala. Bento não consegue ter tempo pra mim, e me liga no meio da madrugada. Quer me ver, e eu que aceite. Morre de amores pelas minhas unhas do pé, meu cabelo comprido, e minha pinta Cindy Crowford, acima da boca. E nem assim, me quer pra sempre. Se faz de desentendido, e me lembra de erros passados. Começa um monólogo sobre como eu deveria ser, e disparo furiosa rumo à porta. Arrependido, volta sempre. Rabo entre as pernas, desculpas esmigalhadas. Em todas as suas voltas, estava diferente.
Bento nunca retorna igual: já teve os cabelos loiros queimados pelo sol, parecendo meu irmão. Negros e finos, compridos. Me apareceu certa vez completamente careca, cabeça lustrosa. E também, com os cabelos mais normais do planeta: sem forma definida, e de cor castanha. Às vezes emagrece, e em outras, dá uma engordada. Nos últimos tempos, tem se mantido à altura: alto e que encaixe completamente no meu corpo graúdo. Bento tem sido cada vez mais bonito, e não tem me decepcionado. Tão charmoso, é um convicto bon vivant. Mas me leva pra jantar num bistrô romântico e pequenino, e quase me engole num cinema meio vazio. Me convida pra progamas inusitados, e alguns, de índio. 
Bento me prende, e depois me solta. Tem a melhor conversa do Universo, e usa um perfume encantador. Embora, uma de suas calças de moletom esteja furada, e use a camisa do time que eu detesto. Bento me enlouquece, e me devolve a sanidade. Tira de mim todas as palavras que quer ouvir, e a roupa é a unica coisa que ainda fica no meu corpo. Usa terno, e depois bombacha. Moletom, e pijama de flanela. Anda de skate, e depois quer surfar. Joga futebol, e estuda direito. Logo depois, de estudar Economia e sonhar em ser publicitário. Bento quer uma coisa, e eu almejo outra. Ele quer o que eu não posso lhe dar, e eu quero o que ele não está querendo me disponibilizar. Vivemos um impasse cabo-de-guerra, e soltamos a corda, vacilados. Bento se foi. E agora, Bento volta. Como eu imaginava, Bento reaparece como promessa de vida, e de vontade. De verdade. Diferente, é lógico. Promessa, eu disse. Isso mesmo. E, até quando? Inconstância. A regra do jogo é exatamente essa.
Bento não existe, e acho que nunca virá a se tornar real. Bento é o que trago de bom, de quem encontro pelo bosque diário, vida. Não passa da personificação de todos que me amaram, e não deram conta do recado que é ser encantado por um furacão. Bento é aqueles que amei, e fraquejaram frente ao desafio que sou. Bento não é ninguém; e ao mesmo tempo, é todos eles. E é exatamente por esse motivo, que eu sou completamente a-pai-xo-na-da por Bento. Para sempre!

21 Comentários:

  1. Liindo, Eu tambem tenho um assim, mas o meu é o Benjamim.
    Quando não há ninguem por perto, é por Benjamim que espero. Que torço, que sinto falta. Mesmo não sendo de verdade, Ele tem as caracteristicas mais apaixonates de todos os caras que me tiveram.

    Adoreiiiiii dona CAmila..
    beijooo

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  2. Um dos melhores textos sem dúvida, e eu que conheço cada um deles, amei e odiei coma a mesma intensidade que tu, e quantos ainda virão querida?
    Continue assim, com essa imaginação e esse domespecial que Deus te deu.

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  3. FAN-TÁS-TI-CO!
    Mto bom, Camila...
    Vc é MARA!

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  4. amei. com certeza um dos melhores que eu já li. à medida que ia lendo, percebia que Bento é na verdade o amor, um pouco de cada ser humano que passa por nossas vida, é isso? muito perfeito, parabéns! ;*

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  5. Acho que bento é uma utopia, mas é uma daquelas utopias que um dia serão realizadas, pelo menos em nossa mente.

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  6. segurei meu queixo. isso ai Dona Camila, arrasando sempre! Muito bom esse texto, tu escolheste bem as palavras, sério, lindo! acredita que até cai de amores pelo Bento? HAHA
    beijos e obrigada pela palavras *-*

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  7. Vim agradecer o comentario *-*
    Estou me sentindo hehehe
    É eu escrevo o que vem no coração ><
    E sabe, vc me inspira muito a escrever...
    Todas nos temos os nossos bentos não é *-*

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  8. MARAVILHOSO CAMILA...
    se supera a cada dia!
    linda :*

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  9. Chega de trabalho por hoje (coisa que não consegui resolver, dã).
    Bela Camila, como sempre quando leio teus textos, imagino as cenas. Consegui imaginar o Bento, ums er que tem todas suas qualidades e imperfeições. Como todos nós né. Você com os pés no chão sempre. O melhor que já li.
    Beijocas bela.

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  10. aiza bento! aeuhieaueh perfeito o texto. beijo

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  11. Adorei o nome! hahaha
    Texto maravilhoso, como sempre. *-*

    Continua assim, surpreendendo cada dia e cada vez mais a todas nós.

    Beijos, guria!

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  12. Esse texto está lindo...
    Até me apaixonei pelo Bento... hahahaha
    Como sempre, escrevendo muitooooooo bemmm... E tenho certeza que milhares de mulheres se encontraram nesse texto...
    bjok

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  13. Acho que isso é bem importante: guardarmos com carinho, esperarmos por nossos Bento's. Porque por mais que eles não existam ou que não correspondam as nossas expectatias e vivam sempre de NOVAS promessas são o que podemos trazer de bom. Viva os Bento's!

    beijos querida...

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  14. Jesusss, demais, emocionasse. Vi direitinho as cenas que tu descreveu, demais mesmo. Pra variar, me deixou sem palavras. Beijão flor

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  15. É Camila,
    o Bento como as mães só mudam o nome!

    Ainda bem que você tem um Bento, alegra a vida, dá uma sacudida, um sentido né?!!



    Beijos flor!

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  16. Nunca tinha pensado assim... Vou criar um 'Bento' particular pra me acompanhar por aí sempre, a qualquer lugar. Mas um Bento personalizado, claro. haha ;)

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  17. Muito bem feito seu texto. Ótimo!
    Adorei o novo modo de ver os Bento's por aí existentes. Vou repensar sobre isso.
    Beijo :*

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  18. Amei Camila.Super envolvente o texto e o Bento.(haha)

    Fiquei até imaginando-o com todas as suas mudanças físicas e de modo de agir.

    bj guria!
    Lindo mesmo.

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  19. adoreei! não sei descrever o que senti quando li, mas é super estrovertido, bonito e louco esse texto *-* tudo numa coisa só, que nem o Bento.

    beijo

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  20. realmente o que dá pra fazer depois desse texto, é dar um suspiro! haha

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