Dura vida e realidade canibalística

5.22.2010 -



Depois de uns dias mudos e inertes, onde eu movimentava e aludia meus feelings de egoísmo ou culpa, posso hoje libertar a minha alma maltratada para o novo. Por mais cansativa ou sentimental, e pior, boazinha que toda essa minha oratória lamuriante tenha se desdobrado, abro sorrisos de sensação boa. Dever cumprido. Eu só não queria essas explicações pela metade, uns ódios querendo desesperadamente ser amor. Negativo. Pela metade, é algo que não implementei no meu dicionário existencial - e nem pretendo. Assim como você, infantilmente, pensa que sabe todas as respostas do mundo, as minhas não. Não imaginava, porém, que essa minha instabilidade te afetasse de tal maneira, emburrada e inflexível. Pareci suplicante, mas ao menos demonstrei minha essência humanitária. Tão oposta ao teu prepotentismo egoísta em achar que todos são como você, autocentrados, inerentes e teimosos. Eu só queria desatar esses nós apertados, que se complicam e embaraçam, e ligar a luz desses sentimentos obscuros, que pifaram em um instante e vinham me deixando cega. Ansiei tão decidida pelas cartas na mesa, que você as omitiu como pode, e quando te prensei na parede, fundo e depressa, perto da janela mais ampla, e escura, você as jogou. E acabou com qualquer possibilidade. Ansiedade. Verdade.
Você preferiu atirar as nossas chances fora, à perder o controle da situação toda. Sabendo que, por mais carente, esperançosa ou boa eu fosse, e corresse o mais rápido possível as escadas, não haveria carta nenhuma lá em baixo. Ou então, sim: sempre há alguma, presa em um boeiro ou, escondida no vão da porta. Alguma forte e oculta, alheia às pessoas, aos ventos e chuvas, que solitária e desgastada, permanece.
Me feriu de um tom imensamente mais destilador, e segue com a balburdia de me condenar. Eu e meus dramas. Eu e minha loucura. Eu e minha família ultraprotetora. Apenas me responde os ataques com palavras curtas e divagadoras, e as habituais sinceridades grosseiras.
Decido ser firme e agir soberana, diplomática. Reúno meu arsenal de criatividade e, antes de me despedir, digo seis ou sete frases para (tentar) te tirar o sono. Ou em tua clara falta de tato, que te deixem ao menos pensando por alguns minutos, horas, já me sacia por completo. Volto para o quarto, e me pergunto, como pude em momentos de total sandice mental pensar que um ser tão extremamente egoísta, uma imaturidade prematura e a insensibilidade gritante, como fui acreditar demente, que esse sujeito me presentearia com alguma felicidade? Presentearia, sim. Compartilhar o tempo maravilhoso dele, falar palavras bonitas e se dedicar um pouquinho que seja à minha pessoa insignificante era como um presente pra ele: custaria caro, e a necessitada em questão, seria eu.
Dentro de mim, alimentando esperanças. Dentro dele, a saciedade carnal. Dura vida e realidade canibalística. Fecho a porta e agradeço a Deus, por ter me safado da cadeia alimentar psicoemocionalafetiva humana, e me transformo numa leoa que ruge, amedontra e comanda. Livre de qualquer perigo, uma rainha da selva. Ainda que às vezes, ingênua.

13 Comentários:

  1. que coisa linda.. adorei esse post.. de verdade

    ResponderExcluir
  2. Como sempre linda em se expressar. Adorei. Essa realidade...

    ResponderExcluir
  3. Descreveu algumas coisas que tenho passado e nem se importou em violar minha privacidade? kkk
    Maravilhoso Camila.

    ResponderExcluir
  4. Sempre arrazando Xará, e decodificando o que sentimos, deve ser mal de Camila.

    Um beijo ;**

    ResponderExcluir
  5. Camilaa,
    faz um tempinho que não tenho tempo de vir até aqui, mas assim que pude, passei um tempão só lendo teus posts que são tão lindos e inspiradores!
    OBRIGADAAAAAAAA pelo selo, eu adoreiii!
    Você continua linda por aqui!
    E te espero em Natal!
    hahah

    ;*

    ResponderExcluir
  6. obrigado por escrever para mim esse pedaço:
    "Dentro de mim, alimentando esperanças. Dentro dele, a saciedade carnal. Dura vida e realidade canibalística. Fecho a porta e agradeço a Deus, por ter me safado da cadeia alimentar psicoemocionalafetiva humana, e me transformo numa leoa que ruge, amedontra e comanda. Livre de qualquer perigo, uma rainha da selva. Ainda que às vezes, ingênua."
    seu texto ficou bem forte, e disse tudo, contou a realidade em que vivemos, como andam sendo as relações.
    beijos flor, arrasando como sempre *.*

    ResponderExcluir
  7. Adorei seu texto, começo escrever agora e você é uma boa inspiração, obrigada e passa la no meu blog para ver se estou no caminho certo :)
    beeijos.

    ResponderExcluir
  8. guria, selos pra você aqui http://eraumavezaluh.blogspot.com/p/selos.html. adoro teu blog, tu sabes, os comentários são merecidos, sempre! :D

    ResponderExcluir
  9. São suspiros mesmo Camila... É isso o que você provoca nas pessoas, além de se identificarem com o que escreves. Tens o dom magnífico de tocar o nosso íntimo, aquilo que até já pensamos em dizer, mas não sabíamos como.
    A cada dia me torno mais tua fã! Parabéns, sempre! Abraço!

    ResponderExcluir
  10. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  11. Egoísmo é que mais há nas pessoas de hoje.Cabe a nós não ser como eles,egoístas ,cada um querendo saber só de si mesmo.O problemas é quando não somos como eles,podemos ser ingênuos demais ás vezes,porém quando abandonamos essa ingenuidade não há ser egoísta o bastante que nos derrube,que nos abale.

    Mais uma vez lindo texto Camila.
    bj!

    ResponderExcluir
  12. Gostei muito muito muito! Um dos meus preferidos, com toda certeza! ADOREEEEEEEEEI!

    ResponderExcluir