Supersticiosamente, à alguém.

4.27.2010 -



Não tenho idéia de a quem se destina, e quais são as mãos que tocam, violam a cola que selava o envelope e os olhos que rastejam sob a minha letra grande e acentuadamente, redonda. O fato é que quando não sei mais a quem recorrer, escrevo. Para gorfar minhas angústicas, retirar o peso da alma, amostrar minhas alegrias, e quem sabe, após tantas alternativas de crença e superstição, qualquer criaturinha mágica se comova com a minha vida demodê e resolva lutar pela minha causa, abraçar meu desespero com garra; Unhas e dentes. Enrolada na toalha úmida, frente ao guarda-roupa, permaneci. Conferi com os olhos, e depois as mãos: Santo Antônio ainda reside lá. A mesma imagem que já foi afogada, já algum dia ficou de pé e sem castigos, acumula ainda hoje pó e desesperança. Tantos meses, e a figura do santo casamenteiro de ponta-cabeça, quando enforcado pelas duas fitinhas do Bom Fim apertadas. Uma vermelha, outra branca. Paz e amor, bem como pedi. O pedido talvez deve ter se perdido nessa capital gauchesca, onde há muito mais mulheres do que homens. Prefiro assim imaginar!
Na porta, desde que ganhei de presente, se encontra um sininho estridente que promete afastar com ventos e ventanias os espíritos ruins, e aconchegar aos bons. Promete, disse bem. E acho que apenas na conversa, nas promessa mesmo, é que fica. Só tem me feito tomar vários sustos e ficar bastante irritada quando o minuano passa, e seus tilintares frenquentes.
No espelho de corpo quase inteiro, analiso finha forma física. Não basta cuidar apenas do intelecto, dizem os sábios, a voz pesada da experiência. E dizem bem! As caminhadas diárias como cura à minha inquietação, sobretudo cerebral, tem saído melhor que a encomenda. Há tempos não gosto tanto da figura curvilínea que me aparece. Daí, aumenta a frequência da pergunta já insistente, e que todos me aconselham como resposta, o tempo: me sinto sozinha. Tão avulsa nesse mundo quanto uma órfã, um cachorro abandonado ou simplismente, um Bubaloo. Ciente de que, intimidade e sentimento a gente constrói, e não se compra, não se adquire assim, de imediato. Requer algum tempo e investimento. Como tudo que tende a ser duradouro, nos foles que a vida apresenta.
Minhas tentativas de fé, de continuar acreditando que os finais felizes estão perto, que os filmes infantis não nos colorem a realidade tanto assim, estão indo ribanceira à baixo. Caindo uma a uma, e me fazendo uma mulher mais forte, racional e fria. E a urgência que bate e bate, a solidão que já se torna escuridão, já vai fazendo a visão turva e a sede clara, atordoante. É tempo então, de pedir. Final de mês, e o sal grosso que sai da cozinha e se coloca pelo corpo, retira o mau olhado e tudo que de alguma natureza, é ruim. Limpeza emocional, física e intelectual. Entrar no mês onde as coisas acontecem com otimismo na veia, olhos que vêem longe, horizontes alargados, amplamente mais largos. Querer agora, e não poder é cansativo. Inesperançoso. Amor não é assim, amor se constrói e dá tempo, tijolo por tijolo. Não se compreende de imediato, enfurece por segundos, e enloquece alguns dias e nos tira do sério e do tédio.


(Escrevi essas linhas em final de Fevereiro, e encontrei hoje, num papéis na escrivaninha. Me trouxe um pouco mais de fé, e ri da situação toda. De tudo que aconteceu rápido demais, e tão logo, nem mais existe. Intenso, foi. Não há do que reclamar. Obrigada, Deus.)

6 Comentários:

  1. tenha ctz de que muitas meninas que leem isso se identificam com vc, assim como eu!
    no mesmo dia em que o post "postumamente prematuro"foi postado, eu que passava por uma situacao semelhante, senao igual.
    continue com esse blog maravilhoso que encanta a todos nos!

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  2. Flor, tem um selo para ti lá no meu blog!
    "O fato é que quando não sei mais a quem recorrer, escrevo. ", escrever é sem dúvidas nenhum uma terapia, e a melhor de todas!

    beijos

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  3. É tão bom quando encontramos perdidas lembranças,coisas que escrevemos e nem lembramos e achamos graça de tudo aquilo,por mais que na hora mesmo tenha sido doloroso pra gente.É confortante saber que isso sempre vai acontecer por toda nossa vida,em cada experiencia por pior que seja;vamos rir daquela situação e pensar ''aah,que boba que eu era!''.
    lindo texto !

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  4. Adorei os textos. Não li todos, mas faz meu estilo. Parabéns pelas escritas! :)

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  5. " amor se constrói e dá tempo, tijolo por tijolo. "

    Me fez lembrar do meu texto (Santa Impaciencia), que escrevi depois que uma pessoa tentou colocar em mim os sentimentos que ele queria, e ainda me disse que o amor vem a primeira vista! Vê se pode?

    Ainda bem que não estou sozinha nessa hein flor!?
    Tempo, ao tempo.

    amei , amei.
    lindo, suave...tocante.

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