Uma luva no frio

3.10.2010 -



Cortando cebola, sentada na mesa da cozinha, preparando a refeição que por enquanto são pedaços de frango, tomates picados ao fogo, juntamente ao óleo e o sal, o movimento contínuo de cortar em pequenos cubinhos e se concentrar em não chorar, não deixar as lágrimas rolarem. Lembrando talvez, do dia em que minha prima se pintou toda e mais parecia um palhaço, ou ontem mesmo, quando peguei no sono e a peste masculina do meio jogou pedrinhas na janela ao invés de tocar campainha, um sorriso. Um vento encanado, na cidade se vestindo de outono, mudando os ares como pintura à dedo, de leve, e nas costas o ar gelado e um vendaval. Frio. Prefiro calor, que surpresa. Detesto andar montada em roupas, e cores sóbrias, sujas. Eu quero o vivo, o colorido!
Enfim, me lembrei de um domingo do calendário passado, mais um em que meu pai me buscava da casa de alguma amiga, que não lembro porque não chamou a atenção, nem me foi conveniente. O vento, sim. A enxurrada sibérica que me arrepiou os pelos das costas lembro o frio que fazia no dia, a partir do momento em que meu pai estacionou o carro para comprar qualquer coisa que fosse, e também não ficou na minha memória, e eu fiquei no carro. Sozinha, num pós-noite e de maquiagem meio borrada, daquelas que a gente tira meio que por obrigação de ser mulher e se cuidar, mas sempre ficam uns resquícios, de tanto sono e cansaço. Som desligado, e um silêncio. Duas crianças brincavam infantis e dançavam felicidade, energia. Em pleno dia congelante que, todos querem um cobertor, chocolate e hibernação. E me olhavam, suspeitas de tanto ceticismo e alguma seriedade. Explico: o sono, o sono. Apaixonada pelo mundo pueril, sorri tímida e de escanteio. Sem muito entusiasmo. E continuaram a me olhar, e rir, gargalhando. Com um pouco de exagero, verdade. Com meu cachecol vermelho, casaco de tweed, e as luvas azuis. Luvas, porque a ponta dos meus gelos quase cai de frio. E acho charmoso esfregar as mãos, meio como quem pede um gênio da lâmpada, ou anseia um delicioso macarrão aos quatro queijos.
Nossa conversa se deu durante alguns minutos por sorrisos fraternos e olhares de aprovação, de cuidado. Até, que uma interrogação. O menino, mais novo, sujinho e depois de chafurdar no lixo em busca de algo que não fosse tão ruim assim, e alimentasse por algumas horas, vendo meu gesto, até então desconhecido, e fez a pergunta que me deixou calada um dia inteiro. O que é isso? Nas suas mãos. Pensei, uma luva. E disse, é uma luva. E continuou a ver curioso o pedacinho de lã que cobria, entornava os dedos e devia aquecer. Sem casacos, ou muito luxo, e nenhuma luva. Fiquei com uma pena que me comoveu durante tanto tempo, sempre esperando voltar à rua de trás para quem sabe, um presente, uma conversa, ou um café. Nescau, ok. Criança nem café toma. Mas alguma bebida que aquecesse, e legal fosse, e uma conversa, uma recompensa peça vida tão marginalizada e escassa que leva, e apenas conhece esse submundo, toda essa sujeira e pobreza muito de perto. Meu pai chegou, e levianos, nos despedimos. Eu, e meus amigos de cinco minutos, os quais o rosto e principalmente a curiosidade, talvez leve para uma vida toda.  Porque sempre depois daquele dia, carreguei uma luva no bolso dos casacos, casaquetos e casaquinhos. Até o fim do inverno, e o começo da primavera. Na sutil esperança de encontrar o guri, e não dizer mais nada: presentear.

10 Comentários:

  1. Seus textos são muito legais.
    Você escreve muito bem.
    Obrigado pelo comentario na minha historia, espero que goste dos outros capítulos também e que queira ser uma seguidora.
    Valew pela força e tenha muito sucesso sempre.
    Bjão!
    http://kimuratorredevidro.blogspot.com/

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Entrei e sonhei totalmente em seu texto *.*
    Muito bom mesmo :D

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  4. adorei a forma que escreve
    Parabéns!!!!
    se quiser retribuir
    http://grudeichicletes.blogspot.com/

    seguindo

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  5. Você escreve muito bem. Consegue Trasceder o cotidiano dando-lhe um toque encantador.

    Parabéns!!!

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  6. estou komexando siim flor!!! parec ser mt difixil mas vou tentar kontinuar xD!! bgd e bjinhus ^^

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  7. Ca(mo)mila..

    Amo tudo aqui. Mas hoje surgiu um discenso em mim..:

    Amo frio. Calor é não bom...

    Beeeiiijos flor = ]

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  8. Como sempre, fico encantada; seus textos me emocionam, me fazem sentir! Nossa, muiiiiiiiito bom.
    Beijos

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  9. Oi meus queridos! Hahaha meus saudosos agradecimentos, e fico de novo, mais uma vez feliz que consiga ser por trajeto das palavras ser compreendida.
    Gabriela, eu não consigo acessar o seu blog :( queria tanto! hahaha
    beijocaaa meninas, bom final de semana!

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  10. Oi, adorei teu blog,
    tu escreves muito bem!!!

    http://garotaborderline.blogspot.com/

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