Breve diálogo com o inconsciente

2.27.2010 -





- Olha, sempre relutei em entrar em qualquer briga; só que já dentro do conflito, sou capaz de pagar para permanecer na peleja. Até o fim.
- Não é bonita a sua atitude, mas me admiro com a sua bravura, sua garra em continuar puxando a corda para o seu lado, escalando os montes até o final, sem fôlego e alimento. Apenas nessa obrigação muda de exibir ao mundo seu sorriso irônico de vitória, muitas vezes, temporário.
- É que força a gente adquire também com sabedoria, com conhecimento. Não apenas na academia e aquele monte de exercícios constrangedores, sabe. Com a força nas mãos, tomando o corpo inteiro aos poucos, essa geniosidade é um aperitivo que acompanha. Faz parte do pacote, só resta, aceitar.
- E você pretende permanecer assim para o resto da vida? Espantando as pessoas para longe, os urros de loucura que te abduzem...E depois que se vão, a volta da sua ternura em doses homeopáticas, genéricos abraços e pedidos de desculpa urgentes, calorosos. Sempre assim. Não se cansa? É uma dualidade bastante paradoxal..
- Me faz bem hoje ser música, e amanhã letra. Essa coisa louca de dormir tão irritada que amanheço sempre sem raiva nenhuma no corpo, nas veias. Ou estar tão calma e guardar para si um entulho de visões ocas e sem razão, um punhado de sensações caladas e explodir por não contar a ninguém o peso que se carregam as relações geometricamente incompatíveis, toda essa bagunça que acabou se tornando o que chamo de cotidiano, de vida. Então acabo hoje sendo a louca, e amanhã visto a carapuça deslavada da mais racional criatura que refiz. Hoje me visto com ares tão retro, e no dia seguinte uma peça de vanguarda apenas, para diversificar. A vida está na mudança constante, não na inércia. Já ouviu falar?
- Talvez por esse seu extenso relicário de máscaras e fantasias, todas reais e com sua marca registrada, porém tão diferentes e complexas, você não complete ninguém. Faça bater o coração agora, e amanhã aparecendo tão diferente do que era, se tornado em tão pouco tempo outra pessoa, e perder a conexão. Sua volubilidade pode fazer mal também, a você mesma. Salpicada em atitudes, em conversas, telefonemas ou mesmo nos cabelos, modo de vestir e linguagem corporal. O que te falta é a falta de constância, guria!
- Que culpa tenho eu, se hoje almejo com toda minha vontade e amanhã sinto nojo, cheiro de museu e velharia; material inaproveitado? Sigo o instinto, eu sei. Vou pelo coração, tenho conhecimento..E não me fujo do que prometi ser. Não de um jeito assim, formal, mas daquilo que acredito e tento implementar aqui nessa vida. Vai saber se terei outra..Algum dia.
- Não acredito talvez em culpa, mas em esforço. Assim como luta por suas ascenções criativas, sua personalidade avulsa, e os ideais que apegou para si, lute também para colocar com um pé na bunda e porta à fora aqueles que não fazem mais sentido algum, e andam apenas sendo encômodo. Escurrace o que sente e reprime,  abandone por algumas horas a tentativa de parecer curvada como a mulher manipuladora e forte, personagem que consegue o que quer. Não há caminhos e nem destino, só fazer o que é certo, o mais rápido possível. Você sabe, o novo.
- O novo, o novo. Sei. Já escutei tantas vezes das duas cartomantes, li em artigos, revistas e livros astrológicos, Iemanjá comentou como minha mãe e em carta de tarô, a Lua e sua mudança aos dezoito anos, chegada da maturidade. A fitinha do Bom Fim branca ainda não caiu, então pode não ser ainda a hora, o tão especulado momento certo. Sei de tudo isso, e ambiguamente, sei cada vez menos. Talvez com menos fé, o conhecimento se vá também..Não que tenha deixado de acreditar. Não, nunca. Rezo noite pós noite, e o anjinho da guarda ainda se inclui nas minhas orações. Esses dias recorri até a papai do céu, coelinho da páscoa e ao meu Santo Antônio, enfurnado de ponta-cabeça no armário lotado, e me peguei falando baixinho: eu me comportei! Hahaha, veja você. Com meu tamanho todo, e enaltecendo meu bom comportamento, minhas boas ações (quase diárias).
- Nem precisaria, pois assim como eu reviso a cada momento os passos e as falas do seu roteiro-cérebro-coração, todos lá em cima vêem. E acredite. Bastante, cega e com verdade. Siga crendo em tudo isso, inclusive fadas e seu duende Glum, que mais cedo, mais tarde, aí está. Ninguém vive tão só pra sempre, pelos cálculos, pelas leis, também me ouça às vezes que é importante: é impossível. Apenas sem fé, esse caminho é aberto. Deixando de acreditar, até mesmo nos finais felizes e nos princípes encantados infantis, você muda sozinha o rumo para a solidão contínua e sem resposta. Então, menina, seja firme e antes de dormir: acredite!

3 Comentários:

  1. Que lindo o seu blog! Conversar com o nosso inconsciente é assim, sempre procuramos respostas naquilo que não vemos com a chance de tentar desvendar..hehe

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  2. Você escreve incrivelmente bem.
    A melhor parte:

    "Ninguém vive tão só pra sempre, pelos cálculos, pelas leis, também me ouça às vezes que é importante: é impossível. Apenas sem fé, esse caminho é aberto. Deixando de acreditar, até mesmo nos finais felizes e nos princípes encantados infantis, você muda sozinha o rumo para a solidão contínua e sem resposta."

    Super beijo

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  3. De todas as escritoras que me inspiram, você é minha favorita! Quanto mais eu fuço aqui no blog, mais em apaixono por seus textos, na maioria deles existe uma palavra que se encaixa em minha vida!!! Parabéns guria por esse belo dom de nos tocar a alma.

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