A singularidade precoce da pequena versão de Cindy Crowford

2.04.2010 -



Era perto das seis da tarde, hora de se despedir da salinha repleta de brinquedos, cartazes de como-está-o-tempo ou quem-veio-à-aula e descer as escadas, rumo ao pátio oxigenadamente arborizado onde pais, tios ou avós chegavam quase sempre com alguma surpresinha, senão, abraços acalorados e mil beijos na bochecha. Saudade das pequenas criaturinhas, que após  infernizar durante a tarde inteira as professoras e auxiliares, em trabalhinhos coloridos com plasticor, a atuação exemplar que era fingir dormir na hora da soneca, ou o tumulto no lanche da tarde, e agora ficavam na grade, entrelaçados à espera dos salvadores que os levariam pelas ruas, de volta para casa. A espera agonizava mais ainda  a cada colega que se via atravessar o portão, mochila nas costas e mãos dadas com o responsável, e aquele sentimento infantil de abandono, onde cada cinco minutos de ausência se resumem em duas, três horas. Os meninos brincavam com espadas, alguns no campinho ao fundo da casa, e outros de lutinha, numa movimentação tão rápida que as "tias" tonteavam apenas de olhar, como num jogo de tênis, de um lado para o outro, sem intervalos. Energia gasta na escolinha, e calmaria, anjinhos ternos e bem comportados, em casa. As meninas levavam a coisa mais à ritmo constante. Algumas poucas brincavam de casinha, na pequena moradia de madeira perto do portão, outras faziam comidinhas, pulavam corda ou jogavam cinco marias. Grudadas na grade, impaciência em ebulição, quatro garotas que antes imaginavam bonecas vivas sendo suas filhas, e situações do cotidiano no papel de mães, esperavam agora aflitas e ao lado da professora. Falavam então, de fadas e princesas, filmes assistidos e aquele papo de criança "quem eu sou" sempre quando se permitiam florear o pensamento e se ver triunfantes como Bela Adormecida, personagens de novela, ou mesmo do extinto Carrossel. Dizendo uma a uma, a primeira, dos cabelos negros e curtos sabia ser a Branca de Neve; outra, magrela e um pouco loira, quase castanha, arranjou uma fantasia qualquer de ser a tal Bela Adormecida. E a outra loira e mais feinha, - óculos aos cinco anos deveria ser crime - sorriu ao proferir ser Cinderela.
Chegou a vez da última. Mais graúda, os cabelos também loiros e grossos, franja em crescimento presa em uma das tiaras que usava, ficava bastante quieta. Ouviu curiosa quem suas amiguinha se imaginavam ser, e ela conhecia todas tais princesas de cor. Só talvez, não concordasse. Ou então, sabia que o mundo era tão mais de carne e o osso do que as músicas animadas e cantantes, os animaizinhos que conversam ou finais tão felizes e perfeitos, injetados nos filmes americanos. O desejo de ser diferente. Quem sabe, o treinamento, a educação voltada à ser quem ela realmente pudesse se tornar, ou gostar. Ela se sabia mais inteligente do que quase todos os colegas. Primeira a ler, e escrever, fazia em casa cartinhas às mais queridas amigas e lia sempre em voz alta, nas aulas. Olhos pequenos, o sorriso amplo e ainda assim uma timidez  aparente, arrancada tão logo se iniciasse o mundo do outro, e fosse apresentado o seu: amizade.
E antes de responder, o que ela sabia que era, porque mamãe havia comentado, e ela concordado, ao folhear revistas e ver pessoas na televisão, titubeou. E você, quem é? Os olhos atentos, as frágeis pequeninas esperando uma resposta óbvia (só faltava então, Bela, de Bela e a Fera; Ariel tinha os cabelos vermelhos, e Pocahontas e Jasmin, pretos) e aquela guria, mantendo a fidelidade que fazia desde cedo às suas escolhas e opiniões, respondeu: Eu sou a Cindy Crowford.
Boquiabertas, meninas que não conheciam essa princesa, nem ouviram falar e confusas se perguntavam se havia a companheira de casinha pirado, ou inventado tal personagem, já que a Cinderela havia ido pro espaço. Apenas o sorriso da professora, e da colega, que partilhavam talvez um pacto irônico de inteligência e conhecimento mútuos. Por que, Cindy Crowford? E os seis olhinhos arregalados, vislumbando a boca pequena e os lábios finos, diminuindo a espera dos pais, e transformando tal falta na ansiedade de saber, porque a escolha dessa desconhecida, de nome estrangeiro e pecualiar? Por causa da pinta. A pintinha, que minha mãe, eu e o papai reconhecemos ser igual à da Cindy Crowford; lado esquerdo, acima do lábio superior e não muito negra ou visível. Apenas atentamente notada, de perto assim, tal charme e belezinha, que desde cedo carregava. Belezinha. Esse era o apelido que mamãe à havia dado, e explicado ser tão único quanto ela podia se tornar. E se tornou. Pelo primeiro recordo de singularidade, a mãe chegou e num abraço de cumplicidade, sabia agora que era mil vezes mais glamouroso ser uma modelo famosa, top number one international, do que penas sonhar, sonhar e sonhar em algum dia, talvez, deixar escapulir um sapato e ter um príncipe e sua corte, logo de manhã, à sua porta. Um raio de estrelismo precoce, e essa capacidade para o diferente, o destino que se assume estreito e singular.
Aos cinco anos, essa fui eu, e hoje quase treze anos depois, acho mil vezes melhor ser a Cindy Crowford (ou algum traço, uma possibilidade desse charme arrasador qualquer) do que insistir na história manjada da princesa que viveu feliz para sempre. Nem só de finais, felizes ou não, ou príncipes (que mais estão para sapos) se faz a vida. É o recomeço que acende, que transcende e transforma. Essa descoberta ininterrupta no auto-conhecimento, aprofundação do ser real, essência descoberta num jardim de alternativas mil. Preço inestimável.

4 Comentários:

  1. lembro de quando eu ia te buscar no Mundo da Criança e da alegria que eu sentia ao chegar e ver a tua felicidade e a certeza de nunca ter sido esquecida, tua autenticidade em ser sempre diferente e dessa pintinha igual a da Cindy. Será que até chegar o teu principe ainda, ainda vais beijar muitos sapos minha filha?

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  2. Menina,que texto lindo !
    eu nem sei o que comentar,mas uma coisa eu concordo, oculos aos cinco anos devia ser proibido.eu chorava pra usar !

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  3. O negócio é que eu encontrei esse blog muito parecido comigo.

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  4. Seu blog é incrível, assim como suas comunidades. Adorei, estou te seguindo. Beijão

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