Parabéns, papai.

2.12.2010 -


Dois gênios ultrajantes. Tive sorte de ser provinda de uma mãe tão passional, sensível, e de papai ter herdado a posição firme, o amor pela música e o sarcasmo, a inteligência rápida, respostas maleadas de ironia e veneno. Tá certo que tenho a mesma arcada dentária, os dentes largos, grandes e fortes; os pés grandes, um pouco masculinos e a unha do dedão que mais se assemelha a uma tela de plasma; e a pele que pega um bronzeado bonito, facilmente, mas tão frágil que faz visitas periódicas ao dermatologista. Dessa miscigênação que sou, fisicamente posso ser a cópia de mamãe (a não ser pelos itens citados à cima) todavia, da personalidade, a maioria das características vieram pelo sangue paterno, e foram se moldando, com convivência diária, alguns atritos e muito amor, sobretudo. Muitas vezes a gente discorda, e entra numa disputa, o tom que se eleva mais, a cara mais feia, ou quem se arrepende primeiro. Em outras circunstâncias, tiramos sarro de pessoas na rua, olhamos os discos antigos juntos ou assistimos à programas televisivamente inúteis, rindo com sorrisos confidentes. É uma relação que ora está por cima, ora lá em baixo. E com tantas diversidades, alguns traumas, a gente aprende cada dia mais, juntos e com os outros dois pequenos, mamãe também e isso que a gente chama orgulhosamente de, família.
Ter pais novos é um desafio tanto para quem nasce, como para quem gera. Deve ter sido triste perder parte da juventude, possíveis viagens, incontáveis festas e as amizades deixadas de lado, em prol de um ser em fase de desenvolvimento. Não posso me culpar por ter nascido, e não tenho ousadia bastante, ou tal cara-de-pau que me faça reclamar da vida que levo, levei e todo o esforço que eu sei que por vezes foi dolorido e desgastante, da parte de vocês. Como disse, o que ganharam, ganhamos, foi muito aprendizado. Muita maturidade, o respeito como prato na mesa, principal. Primordial. Genitores de pouca idade instauram no lar uma espécie de adolescência que nunca morre, renovação de gostos, de idéias e pensamentos. Ainda que o machismo exista, o que é normal aqui no Estado. A verdade é que, o relacionamento é tão mais leve, mais informal e ainda assim, com respeito. Não me imaginaria chamando papai ou mamãe de senhor, senhora. Algo infundável..
O fato é que desse poço de juventude que vejo meu pai beber da água diariamente, ainda que os anos passem, e a tendência seja envelhecer, é o que hoje muitas pessoas não acreditam, e eu custo a crer, que meu pai faz quarenta anos. Não aparenta fisicamente, nem em palavras, idéias. Talvez o Sol em Aquário, divago. E dizer o que eu não digo com frequência ou quase nunca, que eu admiro a trajetória que ele escolheu traçar, essa predisposição e amor ao trabalho, o pensamento sempre nos filhos, na família, em primeiro lugar, e se deixar em segundo plano. Alguém que batalhou desde a adolescência, e hoje tem o que têm, está no lugar que se permite, somente por perseverança, e trabalho árduo. Parabéns, pai. Que a gente se dê cada dia melhor, comece a ter uma visão de vida parecida, conceitos quase iguais e eu ainda possa aprender muito, nesses poucos anos que me restam lá em casa! Hoje, mais do que nunca, que as coisas continuem como estão, e saúde em primeiro lugar. Muito, muito amor pela família, pela mamãe e pelo trabalho. Amor gratuito pela vida. E fé, porque sem ela, qualquer castelo desmorona em segundos e o destino, os caminhos, se tornam meio obscuros e complicados. Parabéns!

(e sim, meu pai é a cara do Humberto Martins. ou primo distante do John Travolta. Como preferirem.)

2 Comentários:

  1. Confesso que meu coração ficou do tamanho de uma ervilha agora de tanta saudade que teu texto me fez sentir de casa. Dos meus pais. Dessa convivência, deste aprendizado e amor que descrever tão verdadeiramente aqui.
    Estou emocionada.

    Grande beijo. *-*

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  2. Texto lindo, flor.
    Ainda não o tinha visto.
    Muitas vezes nós não os entendemos, mas a verdade é que eles, os pais, fazem tudo pensando em nós.

    Abraço!

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