Olhos da moça autêntica

5.18.2010 -


Os avisos eram tão freqüentes, quanto veementes. Deixe a docilidade de lado, não acredite. Use a lógica. Esqueça o coração. Perdoe, mas não esqueça. Vai cair no mesmo papo, como patinho na lagoa giratória, esperando pelo tiro. De cada pessoa, as frases chegavam aos ouvidos sempre de maneira diferente, cada um cuidando o terreno para falar, sem sangramentos ou choros de dor, e com cautela, querendo quase sacudir o corpo da bendita. Confusa. Era assim que se sentia. Tantas ilusões, uma cartela de sonhos, vontades inexplicáveis. Chorava uma vez a cada quatrorze dias, por amor. As outras, uma a cada três noites, quando combatia suas idéias e ideais de frente, e com força, ou assistia comovida aos infortúnios alheios, as desgraças tão maiores do que a sua falta de blusas ou o egocentrismo irritante das amigas. Era uma esponja ambulante. Absorvente, solvia aquilo que sentiam os outros, tinha vocação para se colocar no lugar do outro, deixando vago o próprio assento. Saíam fáceis e abundantes, as lágrimas. Quase sempre por tempo demais, e em excesso. Mas limpavam a alma, reacendiam a fome de vida, vontade de sair correndo e cantar na chuva, ou dançar tango, salsa, sozinha, em casa. Afastar os sofás e dar vida aos pés, mãos, corpo inteiro numa dança libertadora. Não de chuva, mas de sol forte e rejuvenescedor.
E caminhava ela por aí, os olhos atentos em forma de amêndoa, pequenos e negramente profundos, quase sempre baixos, refletindo talvez sua auto-estima, ou timidez e nos gestos delicados, curtos e escassos, com todo o cuidado possível, penetravem sem querer outras faces, e transmitiam aquele enigma, a solidão incógnita que carregava a moça. Um medo de chegar perto. Um terror na presença da estranha, como quem tem uma faixa em torno do corpo, alertando a tinta fresca. Ou alguma doença contagiosa, lepra emocional, racional. Não entendiam, querer chegar perto e não conseguir. Uma beleza interrogatória. Era bonita, sim. Nem em demasia, nem em falta. Na medida exata. Com o tempo, aprendera a exaltar o que lhe era originalmente melhor, e ofuscar os defeitos, também de fábrica. Quieta, sim. Vivia com os olhos nas unhas, as mãos nas cutículas, e uma seriedade vigente. Baixava a guarda somente quando em companhia intensa, conquistada, e assim tornava-se então cordata, tão doce, uma sensível irrecuperável, ingênua sem comedimento. E esses a aconselhavam: torne-se forte. Não caía nesses tentações daquilo que vêm fácil, desse mundo de sonhos que desaba, quase sempre. Abrace o mundo, porém com calma: para deixar que ainda exista oxigênio e respiração, e ele continue a girar azul, e saudável.
Decifrei que errava por querer toda sua intensidade, naquilo que com ela convivia. As flores bem vivas, vermelhas. Vestidos tão coloridos, unhas ímpares e de cores animadas, reluzentes. Coloridas, sempre. Adorava dourado, brilho. Por fora, parecendo ter muito mais idade do que a data exata do nascimento, carteira de identidade ou certidão de nascimento. Internamente, uma garotinha indefesa, esperando apenas para ser acolhida, recuperada. Que entendam a sua excentricidade, seu jeito reservado. E se relacionava com quem valia a pena. Só. Gostava da sensação de cair ou num buraco, ou noutra terra, decifrar e duas escolhas: amar ou detestar. Intenso, e extremo. Modo de pensar, relações e objetivos. Uma vida. E aí é que se machucava. Por pensar que todos fossem bons como ela, íntregos como deveriam ser e altruístas como se sonha. Com frequência a vi triste, olhar longe pela janela do quarto, na sacada. O sol como fonte de energia pulsante, vital, e os olhos cerrados, apenas cantando, cantando, cantando. E tão solitária com a sua pureza indecifrada e a inteligência singular, permanecia; se isolava. Bom não era; sim, triste, apavorante. Porém sincero e verdadeiro. Deduzi: preferia a verdade de uma vida real, pessoas com sentimentos bons a serem doados, construídos, à superficialidade que nos rodeia nessa vida moderna. Ou obtinha com êxito o que intuia, ou quebrava a cara. Erguia-se, mais autêntica do que nunca, pelo mais importante: não havia decepcionado aquela que lhe fez companhia, nos dias frios, nas manhãs cinzentas, ou quando chorou encolhida no quarto. A única pessoa que não a condenou com palavras ferinas, e sim com um otimismo em larga escala: ela mesma.

11 Comentários:

  1. nem sei o que te dizer. aplausos eu dou e depois tu me dás um autógrafo :D você escreveu pensando em mim né, pode me dizer...a forma que eu penso, o jeito que eu vivo, ali, nas linhas, com tuas palavras.
    show de bola guria!
    AMEI, ficou divino!
    beijos

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  2. A Camila, receber um elogio seu que é lindo. Quando eu crescer, quero escrever como você, rsrs.
    Belíssimo texto. O "Chapéuzinho, baralho e a conversa." Perfeito!
    Admiro muito você, e sou muito fã do Calmila.

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  3. Oi linda, mto obg pelo selinho! ja ta alá =) Depois volto aq com mais tempo pra ler seu textinho... bjs!

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  4. Oi querida, voltei aqui para agradecer a indicação do blog do Chapeleta Roxa. Muito obrigado. E pretendo passá-lo para frente. Beijos.

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  5. Simplesmente.... profundo... e sentido.

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  6. muito grata pelo selo! :)
    adorei o textoo! :*

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  7. "(..)Deduzi: preferia a verdade de uma vida real, pessoas com sentimentos bons a serem doados, construídos, à superficialidade que nos rodeia nessa vida moderna.(..)"


    -as pessoas deviam ter os mesmos hábitos que nós .. ler,escrever,'amar' .. elas deviam buscar a pureza e não a futilidade.


    (Muito obrigada por ter me indicado .. fico muito grata)

    beijos .. tenha uma boa semana.

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  8. "Era uma esponja ambulante. Absorvente, solvia aquilo que sentiam os outros, tinha vocação para se colocar no lugar do outro, deixando vago o próprio assento. Saíam fáceis e abundantes, as lágrimas. Quase sempre por tempo demais, e em excesso."

    Isso me soa tão familiar...

    Mais um texto lindo. A cada um deles vou "te lendo", meio que percebendo como tu és, cada detalhe teu.
    Isso é tão bonito. Se colocar dessa forma em palavras. E o que é melhor, fazer os outros te entender tão bem.
    Sou sua fã. ;)

    E obrigada pelos selos! ;*

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  9. ''Era uma esponja ambulante. Absorvente, solvia aquilo que sentiam os outros, tinha vocação para se colocar no lugar do outro''
    Adorei tudo,principalmente o trecho que copiei acima.

    P.S:muito obrigada pelo selinho que vc me mandou.Gostei muito.Bj!:)

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  10. Linda obrigado pelo 'selinho', que honra. bjãoo

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