Uma tragédia no Haiti, e uma calmaria aqui.

1.16.2010 -




Me dá pena e comove, ver toda aquela gente muito humilde, pessoas que nada muito tiveram, nem bens, nem felicidade, assim agora, entre os escombros e à procura daquilo que ainda lhes resta: suas famílias.
Angustia os closes das câmeras, que captam rostos entre peças, pedaços, cacos e muito concreto, vidro. Ou apenas membros assim, espalhados às pampas, gente como nós que aqui estamos, de biquíni na praia, ou por aí, nem sempre feliz, mas certamente sereno e curtindo o calor dessas férias (merecidas). Gente essa, procurando seus braços ou pernas, cotovelos por aí, crianças esperando em filas quilométricas para serem atentidas, e quando então estão frente à frente ao médico, são instruídas a abafar seus gritos de horror e dor, nas cirurgias e procedimentos todos sangrentos e doloridamente visíveis, sem anaestesia alguma. Me machucam tais cenas, dá agonia viver aqui tão longe e estar de pernas pro ar. No entanto, comove também ver que, gente capacitada como os médicos, que preencheram e até mesmo excederam a tal lista para dar amparo a tal catastofre. Doar-se em tal momento necessita de um comportamente ambíguo e forte: ser tão frio a ponto de transmitir capacidade e sentir de perto o cheiro de falecimento e compactuar as imagens da dor. E tão quente, tão emocional e realmente, possuir um dom para estar na condição de sacrificar a sua vida, em nome da existência do próximo. Tais pessoas deveriam em sua volta dessa missão de compaixão receber a condecoração de anjos, ou mesmo, e por que não, heróis. Tudo isso me faz pensar com uma velocidade incrível, embora eu nada possa fazer, a não ser rezar bastante e ter muita fé na reversão desse quadro, desejar muita felicidade e uma recuperação próxima à este país já minúsculo e precário. E saber que a maioria dos brasileiros deve sentir a mesma coisa, essa inquetação interna frente a qualquer atualização dos fatos por lá, me acolhe nacionalmente. Embora também saiba, que mesmo depois do Jornal Nacional comece a novela, e a compaixão já se afasta e é quase metade, e o anúncio das salas de estar e barzinhos seja então a cadeirante, Luciana. E após a novela, mais ainda, baixa para a metade, do que já era metade, e o único resquício de amor pelo outro, com pena, que ainda se tem é pelos coitadinhos do Big Brother Brasil.
Aqui dentro, é só calma. Um espaço totalmente renovado, a ser preenchido. Como a compra de um novo imóvel, onde tem de se colocar no lugar as poucas peças que se vai usufruir novamente, e sair por aí, em busca de novos sofás e estantes, lojas de decoração. Não tenho pressa nenhuma nesse meu processo todo. Aceito essa calma que sinto aqui nas veias, na respiração, como uma dádiva. Há uma semana atrás, ainda chorava, me permitia. Já agora, não. Nem vontade sinto; uma recuperação rápida e pronta, como a maioria dos tombos virtuosos que já levei. Desejo com muita veêmencia que agora os caminhos livres, e assim, as coisas então fluam. Pessoas de qualidade dêem lugar a todo esse âmbito branco e vazio. Que me encontrem, que me compreendam.
Vejo a lua, pela janela, e sinto então companhia: solitária, e continua ali, brilhando, esperando um dos únicos dias em que o sol vem à sua espera, e sem completam, e se amam, e se fundem. É feliz com a companhia que fez de si mesma. Se basta, e é bom. Brilha tanto para os outros, se doa e não pede retribuição alguma em troca. Mesmo que aqui da Terra, todos nós a reverenciamos e olhamos com compaixão toda essa luz. Em segredo.

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